V.17.

O intelecto dos primeiros princípios dos operáveis.

Resta examinar agora o intelecto dos primeiros princípios dos operáveis, que retifica a razão acerca dos fins últimos das virtudes morais, que são os primeiros princípios das operações do homem.

Assim como há um hábito denominado intelecto, pelo qual o homem conhece os princípios das demonstrações, cujo conhecimento não pode ser retirado do homem, o qual conhece por natureza estes princípios indemonstráveis, há também outro hábito segundo o qual o homem conhece os princípios dos operáveis, ao qual chamamos igualmente de intelecto.

Uma primeira diferença que há entre o intelecto que é acerca dos princípios das demonstrações e o que é acerca dos princípios dos operáveis está em que o primeiro é acerca do universal, enquanto que o segundo é acerca do singular e do contingente. Estes singulares podem ter razão de princípios porque é a partir deles, no que é operável, que se alcança o universal; de fato, por causa desta erva ter restituído a saúde a este homem, aceitou-se que esta espécie de erva tem força curativa (143).

A segunda diferença entre estes hábitos está em que embora ambos sejam hábitos naturais, o são de modos diferentes. O intelecto acerca dos princípios das demonstrações é um hábito natural por sê-lo totalmente pela natureza. Já o intelecto dos princípios dos operáveis, por ser colocado acerca dos singulares, e sendo os singulares conhecidos de modo próprio pelo sentido, necessita, de algum modo, das virtudes sensitivas; não somente dos sentidos exteriores, mas também daqueles sentidos interiores como a faculdade estimativa e cogitativa (144).

Chama-se faculdade estimativa a um sentido interno existente em todos os animais pelo qual, por exemplo, a ovelha foge do lobo não por causa da indecência da cor ou da figura, mas pela percepção da inimizade natural; para esta percepção é necessário algum princípio sensitivo interno; mas enquanto os animais percebem estas intenções apenas por um instinto natural, o homem as percebe pelo sentidos internos também por modo de comparação entre diversas destas percepções, de maneira que aquilo que nos animais é dito apenas faculdade estimativa, no homem é dito cogitativa, também chamada de razão do particular, embora seja algo que pertença aos sentidos internos (145).

Ora, todas estas virtudes sensitivas operam pelos órgãos corporais, de maneira que o hábito do intelecto dos primeiros princípios dos operáveis é um hábito natural não à maneira do que é acerca dos princípios das demonstrações, que é totalmente pela natureza, mas pelo fato de que, por disposição natural do corpo, algumas pessoas são prontas a este hábito, de modo que por uma pequena experiência já se tornam perfeitos nele (146).

É sinal que o intelecto dos princípios dos operáveis esteja em alguns homens segundo a natureza o fato de estimarmos que são conseqüência da idade dos homens, segundo a qual a natureza corporal se transmuta. Há, de fato, uma idade, que é a idade senil, que por causa da quietação das transmutações corporais e animais o homem possui intelecto dos princípios dos operáveis como se a natureza fosse causa deles (147).

Assim se conclui que o intelecto que é dos princípios dos operáveis se adquire pela experiência, pela idade, e se aperfeiçoa pela prudência. Conseqüência disto é o ser necessário ouvir as coisas que opinam e enunciam acerca dos agíveis os homens experientes, os velhos e os prudentes. Embora estes homens não nos forneçam demonstrações, todavia devem ser procurados não menos do que as próprias demonstrações, e até mesmo mais. Isto porque tais homens, pelo fato de possuírem experiência de coisas vistas, isto é, um reto julgamento acerca dos operáveis, enxergam os princípios operáveis os quais são mais certos do que as próprias conclusões das demonstrações (148).



Referências

(143) In libros Ethicorum Expositio, L. VI, l. 9, 1247-1249.
(144) Idem, L. VI, l. 9, 1249.
(145) Summa Theologiae, Ia, Q. 78 a.1.
(146) In libros Ethicorum Expositio, L. VI, l. 9, 1250.
(147) Idem, L. VI, l. 9, 1252. (148) Idem, L. VI, l. 9, 1254.