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Despedindo-se deste modo meu amigo, eu me entreguei a estes
raciocínios. E, na verdade, se o mal consistisse só em que aqueles
santos de Deus e varões admiráveis são arrastados e despedaçados
quando os conduzem aos tribunais, em que os espancam e fazem sofrer
tudo o que acabamos de contar, e nenhum dano resultasse incidentalmente
contra a cabeça de quem tais transgressões cometem; eu estaria tão
distante de doer-me por estes acontecimentos, que bem me riria com
gosto e por longo tempo deles. Quando as crianças pequenas, sem
correr nenhum risco, batem em suas mães, não fazem senão
excitar-lhes o riso com seus golpes e quando com maior zanga lhes
batem, tanto mais aumenta o gosto das mães, que caem e se arrebentam
de rir. Mas se a criança persistindo em seus golpes e zanga vem a
ferir-se na mão, ora na agulha com que a mãe prende o cinto da
túnica, ora em algum raio da estrela que enfeita o peito materno,
então sim, então a mãe corta imediatamente o riso e sente mais viva
dor do que o próprio filho ferido. E, prontamente lhe cura a
ferida; mas logo o proíbe com forte ameaça para que não volte a
fazer aquilo, para que não lhe venha a suceder o mesmo. O mesmo,
pois, haveríamos de fazer nós, se víssemos que esta raiva de
crianças e estes golpes de pequeninos não acarretariam a eles uma
grande perdição; mas já que agora, arrebatados de furor, não se
dão conta de nada, terão que chorar e gemer e lamentar-se e não com
pranto de crianças pequenas, mas com o das trevas exteriores e o do
fogo inextinguível; vamos também nós fazer o mesmo que as mães, e
só nos diferenciaremos destas porque não falaremos com estas crianças
através de ameaças e injúrias, mas com muita mansidão e suavidade.
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